Kwanza ganha força face ao dólar e euro


Há quase dois anos que a moeda norte-americana não baixava da barreira psicológica dos 500 Kz. São os efeitos da alta dos preços do barril de petróleo, mas também da crise e da quebra de consumo, bem como da política monetária mais apertada. É que sem kwanzas no bolso não se pode comprar dólares ou euros.

Desde 16 de Março de 2020 que a taxa de câmbio do Kwanza face ao dólar não estava abaixo dos 500 Kz por USD, o que aconteceu esta terça-feira, quando a taxa média desceu 0,73% ao passar de 503,0 Kz/USD para 499,4 Kz/USD.

Já na passada quarta-feira manteve- -se a tendência de apreciação do kwanza face à moeda-norte americana, uma vez que, segundo dados do Banco Nacional de Angola (BNA), pela compra cada dólar valia 492,0 Kz e na venda 505,5 Kz, o que dá uma taxa mé[1]dia de 498,7 Kz por cada unidade da moeda dos EUA.

Quanto ao euro, a moeda nacional também tem estado a apreciar desde o ano passado e cada unidade da moeda europeia valia esta quarta-feira 575,89 Kz, o que representa uma apreciação do Kwanza em 10,3% desde o início de Janeiro deste ano. Ainda assim, a recente apreciação da moeda nacional é insuficiente para compensar a sua queda desde o início da reforma da política cambial, em Janeiro de 2018, já que desde essa altura o Kwanza depreciou 66,7% face ao dólar e 67,8% face ao euro.

Isto porque em 2018 um dólar valia 165,9 Kz, e esta quarta-feira a taxa média era de 498,7, ou seja, hoje um dólar custa mais 332,8 Kz do que no início de 2018. Já um euro vale hoje menos 390,5 Kz que há quatro anos. Quando em 2018 Angola deu início ao processo de flexibilização da moeda tinha como um dos objectivos fazer cair o diferencial, ou gap, entre a taxa de câmbio oficial e a não oficial das kinguilas. Naquela altura, o gap do dólar era de 159%, já que nas ruas cada dólar era despachado a uma taxa média de 430 Kz.

Quanto ao euro esse diferencial era de 167% já que cada unidade da moeda europeia era vendida a uma taxa média de 495 Kz. Hoje, cada dólar é despachado a uma taxa média de 560 Kz, o que resulta num gap de 12%. Quanto ao euro, uma das kinguilas da capital do País disse ao Expansão que os estava a despachar esta quar[1]ta-feira a uma taxa média entre a compra e a venda de 600 Kz, o que significa um diferencial de 4% entre o formal e o informal. Ou seja, um dos principais objectivos que levou à flexibilização da moeda está conseguido. Por outro lado, outro dos objectivos, que visava diminuir a pressão sobre as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) está longe de ser cumprido, já que estas caíram entre Janeiro de 2018 e Dezembro de 2021, passando de 9.856 milhões USD para 10.646 milhões.

Apesar de o início da política cambial ter arrancado em 2018, segundo o Fundo Monetário Inter[1]nacional só em Outubro de 2019 é que o BNA permitiu que a moeda flutuasse sem intervenção do banco central. E de facto é a partir daí que a moeda nacional depreciou abruptamente, começando apenas a recuperar a partir do II semestre de 2020, no período após o choque da pandemia, quando os preços do petróleo começaram a disparar.

Aliás, são precisamente os efeitos da subida dos preços do barril nos mercados internacionais e da quebra do consumo a nível interno provocada pela quebra abrupta do poder de compra dos angolanos, que têm reduzido a pressão sobre as importações.

Quase quatro anos depois da reforma cambial levada a cabo pelo Banco Nacional de Angola (BNA) no sentido da flexibilização da moeda nacional, cumpre-se assim a lei da oferta e da procura: quanto mais oferta e menor procura mais os preços descem. Neste caso, por preços, entenda-se a taxa de câmbio. A menor procura por cambiais tem contribuído para a apreciação do Kwanza face às duas moedas estrangeiras.

Mas há outros factores que contribuem para a apreciação da moeda nacional, como a política monetária mais restritiva que tem vindo a ser assumida pelo BNA no sentido de travar a inflação, já que desta forma tem diminuído a circulação de kwanzas. E como sem Kwanzas não se compram dólares ou euros, esta tendência de apreciação deve[1]rá manter-se ao longo de 2022, caso se mantenha a alta dos preços do petróleo, segundo acreditam alguns especialistas.

O próprio governador do banco central, José Massano, já assumiu que a apreciação do Kwanza também é uma consequência da política monetária: "este curso mais restritivo da política monetária tem contribuído para a estabilidade no mercado cambial, que se junta ao facto de termos também registado um aumento do principal produto de exportação, permitindo que a nível das contas externas tenha um cenário superavitário. É assim que estamos a prever que se mantenha também em 2022", afirmou Mas[1]sano, no final do ano passado, durante a 102ª sessão ordinária do Comité de Política Monetária.

O próprio Fundo Monetário Internacional, no relatório sobre a sexta e última avaliação ao cumprimento do programa de financiamento a Angola, deixa como recado que "o banco central precisa de estar preparado para tornar a política monetária mais restritiva caso a inflação volte a acelerar, ou as expectativas de inflação eleva[1]da se enraizarem".

Na Grande Entrevista ao Expansão esta semana, o representante do Fundo em Angola admite que as taxas de juro estão negativas, uma vez que estão abaixo da taxa de inflação que no ano passado atingiu os 27,0% (taxa homóloga), pelo que defende que a taxa básica do BNA deveria estar "ligeiramente" acima deste valor da inflação.

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