Conversas da Bicha: Se a tua namorada não trabalha, fica sempre em casa toda boa, então és corno


Corno, creio nos dias que correm ser a palavra mais falada pelos angolanos. Em qualquer lado, entre os mais pobres e os mais abastados. A palavra ganha corpo, graças a assustadora infidelidade dos casais. Eh, calma aí, disse assustadora? Então retiro, graças a normal, para não acrescer saudável, infidelidade, pois o anormal tornou-se normal.

CRÓNICA - Quem dúvida? Não acredito que tenhas duvidado. Com vista a tirar a tua indecisão nestas linhas bicheiras dou-te a recordar o caso noticiado no primeiro dia deste ano pelo Angola-Online. Esqueceu né? Àquela jovem de 19 e poucos anos que foi encontrada pelo marido na própria cama (onde dormem os dois) com quatro homens num confronto sexual, ou seja, numa gera. O jovem que transitou de ano no salo/trabalho saiu de casa doido. Olha, custa acreditar. O filme noutras paragens em Angola virou realidade.

Agora acreditas? Responda-te, seja fiel pelo menos com o teu interior.

É esta reflexão que carrego há algum tempo, quis escrever mas às vezes dava um travão de mão na mente. Como o carro não pode ficar no meio da via pública de travão de mão, aliás, com a saída dos fiscais a Polícia de Trânsito agora vai fazer sentir a sua responsabilidade com montanhas de multas. Portanto, coloquei-me em movimento (em jeito de evitar multas) em dia de sol intenso em Luanda. Só não sei se é mesmo movimento, porque, à semelhança dos estúpidos engarrafamentos por cá, dei-me numa destas longas bichas. Ah, esqueceu? Aqui na banda em tudo existe bicha, até para trair o parceiro. Não ri… 

Desta vez fiquei numa, imaginem, para pegar um kandongueiro, não os famosos transporte públicos que andam nesta época de covid-19 cheios até a exaustão. Segundo diz-se, é para cumprir a ordem de chegada, já que os transportes “privados” não podem lotar a 100%, tudo truques pá, estes lotam até ao nariz sob olhar atento das autoridades. Aqui ninguém tem moral de criticar ou punir.

Como é típico, nestes locais conversas bicherais não faltam. De repente mete-se um grupo de zungueiras numa troca de mimos com um cobrador, em busca de refresco palavreal (nem sei se existe) numa tarde quente.

- Respeite as zungueiras, responde uma zungueira a zombaria do cobrador satisfeito com a conversa de encher de gargalhadas sem qualquer pagamento.

No ápice da conversa, uma vez lotada a viatura, uma das zungueiras decide fechar a sessão em cheio.

- Se a tua namorada não trabalha, fica sempre em casa toda boa, então saiba que és corno. Nós zungueiras somos batalhadoras e fieis aos nossos maridos, com pouco ou muito…

Os sorrisos não se fizeram esperar no rosto de quem lutava com o sol, sonhava subir ao kandongueiro. Uma afirmação triunfal, na qual serve de tempero destas linhas bicherais. Parece meio engraçado, na realidade é preenchida de verdade. Nos dias que correm não há mais velhos nem jovens, todos partiram numa corrida desenfreada rumo a traição. Umas tantas vezes não por falta de amor ou bens materiais. Sim, por aqueles prazeres activados pela caxinha mágica vendedora de futilidades, desamores, intrigas e outros males colocados em prática agora pelos mwangopes. É um forte sinal da morte aos poucos da nossa educação de base.

Urge olhar à educação humanista, sob pena de cairmos ao abismo social. 

A gente se vê por aí em qualquer bicha. 

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