Cidadãos obrigados a contribuir até 30 mil para garantir ligação de água
Se quiserem ter água em casa, os moradores de alguns bairros da periferia têm de custear e fazer as ligações entre a rede de abastecimento público e as residências. Empresa Pública de Águas de Luanda garante que não, que é o Estado que suporta esse custo. Mas não descarta que isso aconteça.

Os cidadãos de alguns bairros periféricos da província de Luanda queixam-se de terem sido obrigados a comparticipar as obras de ligação ao sistema de abastecimento de água, com dinheiro e mão-de-obra, para que a água chegue às suas residências. Alegam que, com a autorização da Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL), contribuem com o valor necessário para a compra do material, contratam a mão-de-obra e, depois de construído o ramal de ligação, contactam a EPAL, que vem fazer uma vistoria a fim de certificar que a obra foi bem-feita.

O porta-voz da EPAL, Vladmir Bernardo, garante que as ligações são asseguradas gratuitamente pela empresa. Não descarta, no entanto, que aconteçam situações do género, depois de admitir ao Expansão que vai verificar junto do departamento competente se houve alguma excepção que justificasse a cobrança para efectuar as ligações.

Segundo os responsáveis das comissões de moradores, nomeadamente de Viana, Palanca e Catambor e do distrito de Neves Bendinha, os moradores têm sido obrigados a contribuir com valores que oscilam entre os 20 mil e 30 mil Kz para garantir que a água chegue até às suas residências. Os clientes explicam que a EPAL tem feito ligações apenas nas ruas principais ou nas asfaltadas, deixando aos moradores das outras zonas a responsabilidade de comprar o material, contratar mão-de-obra e fazer a ligação entre as suas residências e o ramal público. E alegam que o facto de a empresa não fazer a ligação domiciliar nestes bairros tem trazido "grandes dificuldades no acesso à água", especialmente para os residentes que não têm como contribuir.

As ligações são feitas apenas nas vias principais

Num dos bairros pertencentes ao distrito de Neves Bendinha, uma empresa privada de construção civil colocou a tubagem e infraestrutura da rede geral, para posteriormente ser feita a ligação às casas durante as obras de asfaltagem das ruas principais. Um ano depois, a EPAL construiu os ramais de ligação e montou as torneiras nas habitações paralelas às ruas asfaltadas, deixando as outras sem tubagem.

A EPAL, segundo os moradores, assegurou que posteriormente seriam feitas as outras ligações. Passados quatro anos, não há sinal da EPAL, nem para continuar o trabalho de ligação às outras casas, nem para cobrar os clientes que já beneficiavam do abastecimento público. A situação gera apreensão entre os moradores, que temem que a factura do consumo de água acumule e a cobrança seja feita de uma só vez, com montantes acima das suas possibilidades.

Agastados com a demora, André e Francisca dirigiram-se à administração do bairro para reclamar. Dizem ter recebido, em meados de 2020, autorização da EPAL para fazerem uma contribuição e contratarem a mão-de-obra necessária para fazer a ligação até às suas residências. Mas até hoje nada acontece. "Fomos para reclamar junto da administração. Eles contactaram a EPAL, que nos autorizou a fazer a ligação por conta própria caso tivéssemos possibilidades. Aceitámos porque não havia alternativa. Eles abandonaram essa área faz tempo e se não tivéssemos tomado essa atitude não teríamos água até agora. A EPAL não tem qualquer organização. Até para começar a pagar a conta da água eu tive de ir atrás deles", relata Francisca.

Os custos financeiros

André, que praticamente foi o responsável por reunir os vizinhos e intermediar as conversações com a EPAL, diz que as obras custaram 570 mil Kz. Numa travessa com 19 residências, cada casa contribuiu com 30 mil Kz. "Eu foi orientado pela EPAL para levar os bilhetes de identidade de todos os chefes de famílias desta travessa e também os números de telefone. Pagámos 80.000 Kz a alguns funcionários da empresa para comprar um material que eles diziam ser fundamental para o processo e eles mesmos vieram montar. Foi uma espécie de caixa que deveria ser a base de todo processo. Depois disso, foram embora e nós demos seguimento ao processo, a obra foi feita por alguns vizinhos que trabalham em construção civil. Concluído o trabalho, informámos a equipa da EPAL, que veio constatar se o trabalho está conforme", explica.

Nesta travessa, o Expansão encontrou Avózinha, mãe de quatro filhos e solteira. Ganha a vida revendendo roupa de fardos de muito pouca qualidade junto à ex-fábrica de tabaco FTU, na avenida Deolinda Rodrigues. Na época em que se fez a contribuição, não tinha condições para participar, por isso, a sua residência não foi abrangida pela iniciativa dos moradores.

Já o líder da comissão de moradores do bairro Palanca diz que foi responsável pelo mesmo processo na sua zona. A EPAL colocou água apenas na rua principal que está asfaltada. As restantes não tiveram a mesma sorte. "Nós tivemos de fazer o processo com os nossos próprios meios. Na minha área, existem três ruas que não estão asfaltadas e essas não foram beneficiadas com o programa das ligações domiciliares, os vizinhos é que contribuíram e fizeram tudo. O processo para três ruas com pelo menos 360 casas custou mais de 7 milhões Kz. Cada chefe de família entregou 20 mil Kz. Hoje todas 360 casas que se associaram têm água nas torneiras", confirmou.

O Expansão esteve também em Viana, nos bairros Seis Cajueiros, Grafanil e no Cazombo. Nestes bairros, ao contrário dos outros, a ligação foi feita pela EPAL há muitos anos. Mas desde que as ligações foram instaladas a água corre com pouca frequência. Passam-se meses sem água nas torneiras. Segundo a EPAL, actualmente os níveis de produção de água em Luanda estão 50% abaixo do necessário e não satisfazem as necessidades de consumo.

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