Antigo tradutor de José Eduardo dos Santos abre o baú com revelações


Moisés Chissano, ex-tradutor de JES, fala do antigo presidente da República.

Quando a tua hora de partir chegar saberei onde encontrar-te Camarada Presidente.

São inúmeras as boas memórias que de ti guardo Camarada Presidente. Quanto às tristes há muito que as deitei fora. Fiz isso seguindo o que diz o livro dos livros: "perdoai para que sejais perdoados".

Em verdade encontrar-te-ei no teu gabinete de trabalho na tua residência no Futungo de Belas, mas também na tua sala onde recebias as visitas de trabalho no outro imóvel perto da antiga assessoria diplomática e onde, por muitos e longos anos, trabalhou o teu grande director de gabinete, o muitíssimo culto Assunção Afonso Sousa dos Anjos, uma verdadeira biblioteca em pessoa.

Encontrar-te-ei rememorando as inúmeras audiências em que pontificavam os teus saudosos colaboradores/correligionários mas essencialmente teus fieis amigos Mbinda e Loy e o teu fiel servidor Man Venas.

Encontrar-te-ei nas inúmeras conferências-cimeiras em que pontificavam os teus colegas e amigos, entre verdadeiros e falsos combatentes do apartheid, da região austral do continente berço. 

Encontrar-te-ei rememorando-te sentado no teu lugar a bordo do 707 comandado por Jose Luis Prata a caminho de Lusaka, de Maputo, de Harare, de Capetown, de Johannesburg, de Dar-es-Salaam, de Windhoek, de Kinshasa, de Gbadolite, de Brazzaville, de Pointe-Noire, de Libreville, de Franceville, de Lagos, de Abuja, de Casablanca, de Marrakech, de Lisboa, de Paris, de Moscovo, de Minsk, de Nova Delhi, de Bombaím, de Pyongyang, de Pequim, de Guangzhou, de New York, de La Habana, da Cidade da Praia, de Praga e de tantas outras cidades e lugares palmilhados no longo e penoso processo de busca da PAZ para a tua e nossa pátria à qual desde muito cedo te entregaste de corpo e alma. 

Encontrar-te-ei sempre que rememorar todos aqueles momentos em que confiavas em mim a tarefa de traduzir e interpretar, essencialmente para a língua de Shakespeare, os teus escritos e os teus pensamentos políticos, económicos, militares e não só. Encontrar-te-ei sempre que rememorar aqueles momentos em que com um olhar me transmitias o teu estado de alma, particularmente naquelas reuniões e encontros em que encontravas mais barreiras e entraves do que entendimento ao teu pensamento estratégico relativamente ao que fazer para a dinamização da luta contra o então inimigo instalado em Pretória. Encontrar-te-ei rememorando um momento em que,  como jamais eu havia visto, deste-nos, a mim e ao Victor Lima, quiçá o teu maior exemplo de como usar a humildade como instrumento na política e na diplomacia quando consentiste ao presidente Mobutu referir-se a ti sem respeito e sem maneiras, mas porque sendo ele na altura o ponta-de-lança da América imperialista no seu ponto mais alto contra Angola preferiste aceitar a humilhação em nome da busca da PAZ para o teu povo e país. Lembras-te desse dia Camarada Presidente? Isso aconteceu entre as 3 e as 4 horas da manhã em Brazzaville. Por uma razão que nunca entendi deixaste o teu ministro das Relações Exteriores no hotel e decidiste levar somente o Victor Lima e eu. Estavam, nessa madrugada, os presidentes Omar Bongo, Sassou Nguesso, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Mali e o próprio Mobutu, encontro esse organizado às pressas por Sassou Nguesso.

Encontrar-te-ei rememorando a vez em que, no final de uma longa digressão pela África, Ásia e Europa, visitámos o Reino do Marrocos e o Rei Hassan II teve a triste iniciativa de dizer o que jamais deveria ter dito. Profundamente irritado, deste-lhe uma verdadeira aula de Direito Internacional e de Política, tendo o Rei ficado visivelmente envergonhado e admitido o erro. Foi nessa noite que eu jantei sentado entre um rei, à minha esquerda, e um presidente da República, o do meu país, à minha direita. There's no way l can forget this.

Reencontrar-te-ei na Cimeira de Gbadolite, particularmente naquele momento em que, ao decidires fazer fé nas bonitas palavras a dado passo pronunciadas pelo Dr. Jonas Savimbi, levantaste-te inesperadamente da tua cadeira e contra as expectativas dos teus então melhores amigos (chefes de Estado) Manuel Pinto da Costa e Nino Vieira, foste do lado de lá da mesa para apertares firmemente a mão do presidente da Unita porque acreditaste que a PAZ havia finalmente chegado! Bem que tentaste disfarçar, mas nesse dia vi-te a chorar. Nessa noite, quando nos encontrávamos no pequeno aeroporto da terra natal de Mobutu, Gbadolite, enquanto esperávamos alguns minutos antes de embarcar, o comandante José Luís Prata olhou para mim e, apontando para ti, disse: camarada Chissano, este homem é um Príncipe da Paz! Isto foi no dia 22 de Junho de 1989.

Reencontrar-te-ei também sempre que rememorar os últimos 25 a 30 minutos do voo que fizemos entre Pyongyang e Moscovo quando me entregaste quarenta, isso mesmo, quarenta (40) dólares americanos a fim de comprar laços para o cabelo da então menininha Isabel dos Santos e loiça para a tua irmã, a tua mana Marta. Disseste-me para comprar laço para cabelo de 15 dólares e loiça de 25 dólares

Texto de Moisés Chissano, ex-tradutor de JES

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