Sindika Dokolo e a luta pelo resgate da cultura Angolana
Eu me pergunto aqui, se por acaso Sindika Dokolo amanhã receber um cargo de responsabilidade na área da cultura angolana, será que devemos olhar com aquele discurso de nepotismo, influência, ou açambarcamento de cargos públicos?

"A cultura é o manto que cobre o nosso espírito"

Na verdade é notável o seu empenho e esforço na restituição do mosaico cultural angolano, sua contribuição através da Fundação Sindika Dokolo não pode ser ignorada, uma instituição ligada a promoção das artes e da cultura angolana.

Músicos como Ndaka Yo Wiñi, Teddy Nsingui, Gabriel Tchiema, Sandra Cordeiro, têm sido bastante valorizados nos eventos da Trienal de Luanda, mestres como Abreu Paxe, e outros têm tido a oportunidade de orar e partilhar diverso conhecimento, na verdade a fundação Sindika assume um lugar cimeiro na promoção da cultura angolana, e seus créditos não podem ser ignorados.

Bem eu por mim não creio, existe algo que devemos atribuir as pessoas, é a meritocracia, está provado que por vezes ser filho da terra, não é condição cinequanon para que se ame a terra, no entanto também devo aqui recordar que o amor a terra a Pátria, são construções culturais e de educação de Estado, se a educação é obliterante, estes valores que estimulam o Patriotismo, o amor a cultura, a terra e ao povo, passam para último plano em sociedades extremamente dinâmicas, emergentes e imediatistas cujas prioridades sociais constantemente se afastam de valores como cultura, arte e identidade.

A meritocracia deve sempre obedecer um padrão de justiça pelo equilíbrio, ou seja não existe meritocracia, se as condições em que o mérito de alguns é forjado claramente oferece vantagens em detrimento de outros grupos, no entanto é preciso recorrermos ao discurso do ambiente, a sociedade, que se funde com o espaço sociológico onde as pessoas desenvolvem a sua ligação com a arte e cultura, suas aspirações em torno do mundo da arte, na ideia de resgate da sua compreensão sobre a necessidade de cultura e identidade.

Amar a cultura é preciso desenvolvermos a sensibilidade artística, este gosto refinado muitas vezes provém de educação de berço, outras vezes da educação enquanto projecto de estado firmemente envolvido com programas de descolonização estruturantes.

Acompanhando a nossa cronologia histórica o processo de colonialismo destruiu diverso legado cultural Ngola, houve pilhagem de diverso material cultural pertencente ao povo Ngola/kongo, recuperar isso exige dinheiro e disponibilidade, pois aqui estamos a falar da reconstrução da identidade cultural de um povo, algo que deve ser encarado como um projecto politico de Estado, mas no entanto não se dá grande investimento neste lado, não se prioriza cultura, consequentemente a identidade cultural.

Angola é o típico país africano que espera atingir a modernidade através da erradicação da sua cultura, seu legado antropológico, histórico, linguístico e cultural, e assumir o comportamento de parasitismo cultural, entrado tipicamente no "outro cultural"Europeu como premissa de desenvolvimento social, económico e político.

No entanto devemos lembrar que grandes países são frutos da consistência das suas culturas, as culturas definem a identidade, definem o espírito individual e colectivo de um povo, nós africanos temos tido dificuldade em associar a cultura e a história ao progresso, para nós africanos acreditar no mito da civilização culturalmente avançada, define em diversos aspectos a nossa forma de se adaptar a outras culturas, a ideia de que uma civilização poderosa, é fruto de sua cultura, e seus sistemas religiosos, e então clonamos culturas estranhas, a espera de conquistar a civilização e o progresso de outros Países, com realidades históricas e contextos sociológicos totalmente diferenciados dos nossos.

A ideia de que o deus dos colonizadores europeus é superior ao deus dos africanos, e que sendo assim sua cultura é igualmente superior.

Mas na verdade, se você olhar o Japão enquanto potência tecnológica, o Japão Moderno é resultado da conservação de sua cultura ancestral de "Samurais" sua disciplina, seu progresso é fruto de códigos de guerreiros samurais ancestrais, cujos valores defendidos por esta magnifica classe de guerreiros se centrava, na honra, coragem, autodidatismo, cultura e conhecimento, hoje o Japão moderno é resultado da conservação desta cultura, e ela define e regula o progresso e a conduta colectiva na sociedade Japonesa.

Em Angola existem vários bilionários e milionários se a cultura não possui grande expressão isso se deve em grande parte ao pouco interesse de investidores, portanto, é preciso existir sensibilidade em quem quer que seja para que a cultura constitua prioridade em suas agendas.

A verdade é que em Angola temos uma classe de milionários pouco interessante e grotesca de certo modo, essa classe sem gostos refinados que não enxerga a prioridade de um resgate cultural, e sendo assim não investe em cultura, porque na sua maioria são "assimilados" e não entendem a importância da cultura e da identidade e vivem agarrados a ideia de superioridade dentro de padrões culturais de comportamento Europeu.

A cultura existe para nós fazer lembrar que não existe futuro, nem progresso para aqueles que abandonam a sua cultura e o seu saber ancestral.

Sindika Dokolo recuperou já diverso material pertencente ao acervo cultural Ngola/Kongo, saiba mais aqui: http://www.fondation-sindikadokolo.com/page/2/.

Parabéns a Sindika Dokolo e a Fundação SD, pelo apoio e excelente trabalho que tem vindo a desenvolver em prol do resgate da cultura e identidade de Angola.

Por: Isidro Fortunato

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