Opinião: Água para todos ou apenas para os Reis d´água?
Recentemente, com os olhos postos “na lente”, assistimos todos uma reportagem sobre o garimpo de água no famoso programa da TPA. Uma reportagem para não esquecer, mas, para rir, chorar e refletir concomitantemente.

Para não esquecer: porque o “Estado” leva anos e anos a tentar garantir de forma sustentável os serviços públicos essenciais, entre eles – a água, entendida como o recurso mais precioso no planeta. 

E certamente que levará mais anos a tentar garantir esse serviço, não só pelos índices epidémicos de corrupção que grassam no país, mas pela insaciável necessidade deste bem, o seu carácter insubstituível e indispensável para qualquer população. Logo, esta temática foi, é, e continuará a ser atual enquanto existir vidas em Angola.

Para rir: não se trata de rir para não chorar, como meio de recusa ao sofrimento, nem tão pouco como último remédio. Trata-se de rir mesmo, de gozo. 

Pois que, tendo (e bem) o Governo do actual PR como principal objectivo o combate a corrupção e a impunidade, ainda assim foi preciso os angolanos esperarem uma reportagem da TPA para verem denunciadas algumas práticas ilícitas neste setor e a exoneração do Diretor para Segurança Empresarial que por algum descuido “deu bandeira”. 

Reparem que este esquema não veio a público por causa da recente remodelação (entenda-se, exonerações) na EPAL feita pelo PR! Isso é incrível. 

E conduz-nos a pergunta: se não tivesse sido realizada essa reportagem – com um jornalismo de investigação plausível - quando é que teriam sido investigadas, denunciadas e condenadas essas práticas conhecidas? 

E mais: rir porque agora estamos expectantes relativamente às próximas reportagens sobre as puxadas de energia e tantas outras práticas ilícitas neste sector para vermos algumas exonerações, inquéritos criminais a serem instaurados, etc. 

Estamos igualmente à espera de outra reportagem no sector da saúde para termos certeza de que os hospitais nem sequer têm, por exemplo, uma ampola para vacinas contra a raiva porque os seus funcionários furtam e desviam os produtos farmacêuticos e equipamentos para as suas farmácias a fim de verem os seus negócios rentáveis? 

Sejamos sérios: o que acontece com a água acontece igualmente com o serviço de saúde, de educação, de energia, de combustível, de gás, etc. Este é o tipo de situação que a árvore esconde a floresta.  

Para chorar (em vão?): não só pelo facto dos senhores reis d´água (ou da energia, dependendo do caso) serem funcionários das mesmas empresas de energia e águas, parentes, sócios ou amigos de figuras ligadas ao sector, mas porque a situação é evidente, lamentável, dolorosa e sentimo-la na pele, na garganta, no bolso e no voto depositado aos governantes do país. 

Para refletir: que tipo de ilícitos ou crimes o Governo pretende combater? O combate à corrupção deve ser pleno, sobre tudo e todos porque o DNA da corrupção infelizmente está em cada um de nós, e não apenas nos políticos-governantes. 

É preciso reverter o quadro, repensando as políticas públicas de acesso a água, sua supervisão e fiscalização de forma séria. A presença do Estado deve ser sentida. 

Outrossim, nós precisamos de nos humanizar. Porque não devemos apenas pensar na quantidade de dinheiro que o Estado perde com essa venda ilegal da água, mas sim com o número de pessoas que morrem por falta deste recurso. 

Por isso, o papel da população neste combate através da vigilância e consequentes manifestações de expressão nas redes sociais, nas ruas e qualquer meio de comunicação social, além de corresponderem ao pleno exercício da cidadania, correspondem também ao seu papel proactivo neste combate e não como meros espectadores, mas como atores das mudanças que o país precisa.  

Opinião de Suri Pedro Rocha Santana

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