“A SOBREVIVÊNCIA DOS JOVENS SOB AS MIGALHAS DA TERCEIRA IDADE. E na minha pequenez... Pensei”
Texto de Imisi de Almeida, estudante universitário e empreendedor. Escreve vários artigos sobre educação, sociedade e não só, ainda neste ano, irá representar Angola no concurso de tribunal simulado de direitos humanos, nos EUA.

O Recenseamento Geral da População e Habitação (RGPH) realizado em 2014 permitiu-nos saber que a população angolana é constituída por 25 milhões 789 mil e 24 habitantes ( hoje, 2018, estima-se que já estejamos nos 28 milhões de habitantes), sendo que 6 milhões e 945 mil e 386 vivem em Luanda, deste universo 12 milhões 499 mil 041 são homens e 13 milhões 289 mil 983 são mulheres. Os dados permitiram-nos saber também, que a população angolana, é maioritariamente jovem e que a esperança de vida é de 60 anos. 

Ademais, trouxe-nos estudos sobre a religião concluindo que 41% da população residente em Angola é católica, e 38% é protestante. Sobre a situação dos estrangeiros residentes em Angola, foi recenseado um total de 586.480 estrangeiros, representando 2,3% do total da população (percentagem que provavelmente terá sofrido uma baixa considerável, com a chegada de sua Excelência crise econômica). 

A sociedade angolana é visivelmente constituída por jovens, homens e mulheres com menos de 35 anos de idade, que se debatem com problemas ligados a formação, oportunidade para o primeiro emprego o sonho da casa própria e outros tantos que afligem este que é notavelmente o maior grupo social se classificarmos a sociedade angolana em grupos de crianças, adolescentes, jovens, adultos, e idosos. 

A maior parte dos jovens dedica-se em negócios para conseguirem sobreviver, sem empregos nesta altura que se diz de “Vacas magras” a maioria dos jovens também não tiveram empregos e oportunidades na altura em que “As vacas sentiam-se obesas”, por razões que o capitalismo de compadrio responde e bem. 

São poucos os jovens que conseguem ingressar para o ensino superior, e alguns tantos no decurso da formação superior desistem, pois não conseguem suportar as propinas. E por isso mesmo, algumas pessoas que se dizem árbitros, com a emoção do jogo tornaram-se jogadores criando instituições de ensino superior (ou entrando como sócios) com qualidade duvidosa e de preços ditos acessíveis para atrair os jovens que se encontram fora do sistema do 3º nível, unicamente para retirar dos jovens o pouco que tem, que muitas vezes nem provem dos seus bolsos, mas sim dos seus progenitores ou tutores. 

Quem não se lembra dos cursos que deixaram de ser leccionados em algumas instituições por serem considerados ilegais pelo Instituto Nacional de Avaliação, Acreditação e Reconhecimento de Estudos do Ensino Superior (INAAREES) em 2015? As instituições que foram consideradas ilegais?(Caso Instituto superior Inocêncio Nanga, Instituto Superior Nossa Senhora da Muxima) Os jovens que perderam tempo e dinheiro e no final nem se quer foram indemnizados, e ninguém foi responsabilizado. E quem olha para os jovens? ... No que a presença dos jovens diz respeito aos cargos de liderança e influencia politica estamos assim. A nível da Assembleia Nacional dos 220 deputados apenas 7 têm menos de 35 anos.

No que ao executivo diz respeito, com as últimas nomeações, tentou-se rejuvenescer alguns departamentos ministeriais bem como os governos provinciais, com a nomeação de alguns jovens. (temos um secretário de Estado para a Reforma do Estado com 32 anos, um secretário do Presidente da República para os Assuntos Políticos, Constitucionais e Parlamentares com menos de 35 anos, um Vice-Governador com 29 anos (Evanerson Leandro Varo Kaputu – o “Famoso” Dj Leandro 300. Vice-Governador da Província da Lunda-Sul, para os Serviços Técnicos e Infraestruturas), um Secretário de Estado da Indústria com menos de 35 anos. e antes que questionem, não temos ninguém com menos de 35 anos no Conselho da República, órgão consultivo do PR) É este o quadro radiografado por nós.

Poderão dizer (e como se tem dito, e muito) que em Angola ainda não existem jovens suficientemente capazes, ou como se tem dito de forma mais educada “ Não temos quadros qualificáveis” ou até mesmo para tentar acalmar as nossas almas “não temos quadros ALTAMENTE qualificáveis”. Se calhar concordamos que não existe um número considerável de jovens formados em 16 anos de paz e com os problemas de acesso ao ensino superior que temos, mas dos poucos que há? São valorizados? Tem as mesmas oportunidades com os que militam? E o que se diz do Plano Nacional de Formação de Quadros inserido no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2013-2017? Esperemos pela materialização do discurso da meritocracia!

Enquanto o quadro não mudar, os jovens continuarão a ser governados por uma minoria de cidadãos que já se encontram em idade de aposentadoria, e viver das migalhas por eles deixadas cair. Alguns nem se quer acompanharam a evolução dos tempos, e hoje não entendem o fenómeno democrático nem tão pouco entendem sobre as necessidades e escolhas actuais dos jovens e os seus problemas. É claro que não se encontram todos no mesmo estado de calamidade, alguns até percebem sobre as evoluções que ocorreram e ocorrem, dão uma de preocupados, mas no final do dia, TODOS OS CAMARADAS ANDAM JUNTOS!

O que seria de Angola se tivesse jovens exercendo funções de governadores provinciais? O que seria de Angola se tivesse mais ministros e ministras em idade jovem? O que seria de Angola se pelo menos metade da Assembleia Nacional fosse constituída por deputados com menos de 35 anos? ... A visão pessoal de quem dirige um sector, acaba influenciando de forma directa na determinação de políticas públicas e sua aplicação nas áreas em que actuam, por isso, acreditamos que se a estrutura estatual estivesse minimamente rejuvenescida, estariam minimizados os problemas que assolam a juventude. 

São os jovens a maioria, logo, os maiores problemas sociais, afectam directamente a juventude. Então porque não permitir que sejam os próprios jovens a ocuparem cargos estratégicos que os possibilitem resolver os seus próprios problemas ao invés de limitá-los com o discurso do imediatismo?

Nem todos os jovens estão interessados em “Panteras Brancas, Negras ou Rosas” para caracterizar África, alguns jovens estão interessados em saber o porquê que não se estuda Cheick Anta Diop nas universidades africanas? E se for pra falar dos problemas locais, alguns jovens (que ninguém dá a devida atenção) estão preocupados em saber, como será paga a dívida pública angolana que nesta altura o FMI estima que esteja em 60% do PIB? Estão preocupados em saber quais são as políticas fiscais que cairão sobre nós? Quem vai resolver os problemas do leste do país que há a anos, a seca e fome e como se não bastasse, agora, sofre também com os problemas de acessos? Há vários jovens com causas, há vários jovens com formação técnica, superior (são Licenciados, mestres, doutorandos ou já doutores) sim, tem sim. E se questionarem onde estão? Questionaremos também e em igual direito, onde estão as oportunidades? Os fiéis vão à igreja, quando as portas então aberta, portanto, apresentem as oportunidades que os mesmos aparecerão. 

Tentarão questionar ainda. São competentes? Ou altamente competentes? Perguntaremos também, onde foram comprovadas as suas incompetência ou altas incompetência? Como será possível aferir-se as qualidades de quadros sem que os mesmos sejam testados?

Numa outra dimensão, foi interessante perceber que sua excelência Presidente da República nomeou em Decreto Presidencial n.º 001/90 os seguintes jovens:

  • Abacate Laranja Limão – Ministro da Juventude e Desporto.
  • Manga Melancia – Secretário de Estado para a Juventude e desporto.
  • Tangerina Ananás – Governadora da Província de Luanda.
  • Catatu Fumbua- Governador do Uige.
  • Maça do Pau Grande – Governadora de Malanje.
  • Banana Maruvo – Governadora da Lunda-Norte.
  • Jinguba Torrada- Ministra da Geologia e Mina.
  • Chá com Pão- Ministro da Cultura.
  • Kicobellas Kuana – Ministro da Indústria.

Entre outros.

Seria verdade se eu não fosse tão pequeno e ainda ter que aturar sonhos tão grandes que me deixam molhado, e por um instante, um mero instante... Esquecer-me da minha pequenez, mas viver de migalhas... Não vou!

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