Wylsony dos Santos: Há jornalistas abastados e há jornalistas que ganham muito mal
Wylsony dos Santos é um jovem jornalista de destaque em Angola e não só, fruto do trabalho árduo que tem feito em prol da comunicação social tem recebido muitos reconhecimentos. Foi estudante de economia, mas pelo gosto pela moda, televisão e rádio, desistiu do curso e abraçou a formação de Comunicação Social, e conclui com êxito. Desempenhou por muito tempo a função de professor auxiliar na Universidade Privada de Angola.

A criatividade e o amor pela comunicação, contribuíram para que Wylsony dos Santos, criasse o programa ‘’Mais Comunicação’’ (o primeiro ligado a comunicação em Angola), emitido aos sábados pela rádio Kairós 98.4 Fm. Com dois anos de existência, mais de 30 profissionais da comunicação já passaram ao programa de Wylsony, entre nacionais e internacionais. Pela dimensão do programa e pelo contributo que tem dado a comunicação, Wylsony dos Santos, lançará na primeira semana de Fevereiro do corrente ano em Portugal, o seu primeiro livro de entrevista intitulado ’’Comunicação, o espelho de um país’’. Recentemente Wylsony dos Santos, foi apontado pelo jornal O Mercado, como uma das 14 figuras que a sua frase marcou 2016.

Acompanhe a entrevista concedida por Wylsony dos Santos, ao AO

Acompanhe a entrevista concedida por Wylsony dos Santos, ao AO

Numa altura que se exige cada vez mais qualidade na formação de quadros e a tecnologia vem ganhado espaço na comunicação e não só. Será que estamos a formar quadros qualificados para o futuro?

Falar de comunicação, é apostar na formação, há muito trabalho por ser feito, temos de reformular os cursos. Nós ainda estamos a formar jornalistas para os órgãos tradicionais (estou muito preocupado com isso), o jornalista hoje é um jornalista do futuro, temos de formar jornalistas para aquelas que são as novas tendências da comunicação, um jornalista que hoje consiga trabalhar num jornal, rádio e tv em online, editar vídeos, postar nas redes sociais e que fala línguas. Ainda não estamos a formar este tipo de jornalista, estamos a formar pessoas que sabem fazer notícias. Temos de reformular o curso de comunicação, e sermos mais rigorosos com as universidades que leccionam o curso de comunicação e não têm laboratórios. Estamos a deformar, as pessoas passam quatro ou cinco anos para ter uma formação não a nível daquilo que o mercado quer. Estas novas tendências estão fazer com que os órgãos de comunicação hoje precisem cada vez menos de pessoas, portanto, hoje estamos automatizar o processo, hoje tens uma emissão automática de rádio 24 horas ao dia, hoje assistimos nos campos de futebol a retirada dos repórteres de imagem para pôr câmaras robotizadas. A área da comunicação é muito invadida pela tecnologia, marketing digital, jornalismo online, e nós precisamos criar competências para os estudantes aprenderem estas plataformas.

Que avaliação faz dos jovens jornalistas?

Temos muitos jovens jornalistas bons, com criatividade e perspicácia naquilo que fazem. O que me preocupa é que há jovens que estão na profissão, mas não estão, não sei o que pensam do jornalismo. O jornalismo é um sacerdócio. Há tempos fui entrevistado por uma jovem de um órgão de comunicação social, nem uma lapiseira e livro de apontamento tinha, hoje vimos matérias em que há jornalistas que aparecem nas fotos, sobretudo nos órgão online que vão existindo, o jornalista não pode fazer parte dos factos, é sempre um mediador. Muitos fazem matérias de eventos a focar mais os amigos… Isso é decorrente da fraca formação, temos de pensar em jornalismo, há pessoas que estão no jornalismo, mas não estão. Um jornalista que se preze tem de ter faro jornalístico, tem de encontrar factos de casa até a redacção, hoje temos telefones temos tudo, se houver um acidente liga para redacção e entre em directo. É isso que se quer, não se quer que o jornalista chega na redacção e dizer que houve um acidente no Cazenga e depois encontram já tiraram tudo.

Muitas das vozes da comunicação em Angola e organizações internacional têm afirmado que não temos liberdade de imprensa. Afinal há que nível de liberdade de imprensa estamos?

A liberdade de imprensa são termos filosóficos, tenta-se alcançar, nenhum país tem liberdade de imprensa na plenitude. Acho que a liberdade tem muito a ver com a qualidade da formação, e o nível de formação da sociedade e das aberturas que o poder político dá. Mas é bem verdade que há pessoas que abusam da liberdade de imprensa, temos que criar equilíbrios. Os jornalistas precisam de se juntar e fazer bem o seu trabalho e o poder político também precisa de se organizar e fazer bem o seu trabalho, os jornalistas precisam fazer entender aos políticos que a comunicação social é um parceiro, não é uma afronta para o poder instituído, é um parceiro. Quando um país tem liberdade de imprensa, quem sai a ganhar é a sociedade e não uma pessoa em particular, quando temos uma comunicação asfixiada, os resultados que se vê são estes. Estamos num nível em que devíamos estar, podíamos estar melhor. Precisamos encontrar consensos para que tenhamos uma Angola melhor e com patriotismo sobretudo. 

Há muita discussão em torno da nova Lei de imprensa, muitos jornalistas dizem que a nova lei vem restringir a liberdade de imprensa. Como jornalista, qual é o seu ponto de vista relativamente ao novo diploma?

Tive acesso a este diploma antes de ser aprovado, acompanhei os debates, há de facto alguns ganhos nesta nova lei e há também alguns recuos. Há uma ideia de se tentar cercear o direito dos jornalistas ou de se controlar a actividade jornalística no país, isso é visível. Houve avanços, não posso dizer em factos, mas se olharmos para antiga lei que não chegou a ser regulamentada, houve o surgimento da ERCA, houve aprovação das pessoas que vão ingressar para profissão. Para mim que pelo menos tem formação na área, já começamos a criar uma baliza para quem terá acesso a comunicação. A um conjunto de questões que os jornalistas vão reclamando e que faz todo sentido, e para quem não teve nada já é um bom começo, pois, precisamos criar consensos e pontes.  

Como olha para a situação social dos jornalistas?

É lamentável o que estamos a viver ainda, claro, há excepções, há jornalistas abastados e há jornalistas que ganham muito mal, isso também condiciona a questão da liberdade e censura. Portanto, um jornalista quando não tem condições sociais, é muito fácil alguém condiciona-lo, dando-lho alguma coisa. É um dos males que temos de vencer, os jornalistas têm de ser bem pagos, porque o trabalho que o jornalista exerce é estruturante para uma sociedade que se quer democrata e progressiva. 

Como primeiro angolano a criar um programa ligado a comunicação, sente-se orgulhoso por isso?

Ainda não, ainda temos muito trabalho, me sentirei orgulhoso quando ver a comunicação em Angola a ocupar o espaço que é merecido, com profissionais da área da comunicação granjearem o respeito da sociedade, ser respeitado a nível de um jurista, médico e economista. O nosso trabalho tem sido mostrar a sociedade que comunicação também é ciência, também carece de profissionais altamente qualificados.

Sente que o ‘’Mais Comunicação’’ tem contribuído no desenvolvimento da Comunicação em Angola?

Creio que sim, a ideia é esta, nós temos objectivos muito claros, nos identificamos muito cedo desde a feitura do programa, aquilo que seriam os nossos objectivos principais, o que queríamos alcançar com o programa. Temos tido retorno, em 2016 recebemos vários estudantes do ensino médio e superior, que pediram-nos livros e ajuda para entender alguns novos conceitos e fazer trabalho de fim do curso. 

Em dois anos de emissão do Mais Comunicação, uma das temáticas que sempre mereceu destaque é a diferenciação de jornalismo e publicidade. Como estamos em termos de conhecimentos ligados a publicidade?

A comunicação tende ser mais temática, estes conceitos têm uma fronteira quase invisível, não se pode misturar as questões do jornalismo com as questões da publicidade, são dois ramos diferentes. O jornalismo tem as suas próprias regras e a publicidade também. Num país como nosso, o jornalismo tem mais destaque, nós estamos a construir estes conceitos, as pessoas estão aprender a identificar os conceitos, a falar e a entender sobre os mesmos. 

O negócio da publicidade em Angola ainda é insignificativo, ainda é um pouco amador, já alguma coisa está sendo feita, mas é amador ainda, não tem as mesmas características que tem um mercado na Europa, na América. As empresas hoje não dão importância a comunicação institucional, isso também faz com que nós não produzimos em grande medida estudantes ou profissionais da área da comunicação para estes grandes desafios, o nosso sistema de ensino, sobretudo a área da comunicação está formatado para formar um jornalista, e não está formar publicitário, RP (Relações Públicas, e marketeiro. Isso causa uma confusão de conceitos, e as academias tem vindo separar estes conceitos.

O que o livro ‘’Comunicação, o espelho de um país’’, trará para os estudantes de comunicação bem como aos profissionais da área?

Criamos o primeiro programa de comunicação em Angola, tivemos a oportunidade de viajar pelo mundo, e achamos pela carência de livros da área de comunicação de autores angolanos, compilamos entrevistas que passaram em rádio e que foram muito interessantes e foram subsídios de pessoas que falaram sobre rádio, publicidade, jornalismo, televisão, revista, um conjunto de temáticas da área de comunicação todas elas bem definidas, fazia todo sentido organizarmos isso num livro em formato de entrevistas para disponibilizarmos aos estudantes de comunicação, a outros profissionais, e para quem se interessar em entrar na área que vamos abordar. Muitos destes temas não fazem parte ainda nem dos currículos de formação de comunicação social no país, muito menos em alguma bibliografia da área da comunicação. 

No livro tem oito páginas a falar de marketing digital, visto que cerca de 90% do negócio está no marketing digital. Tem uma temática sobre o marketing interno que é uma junção do marketing e os recursos humanos.

Eu creio que os estudantes terão grande proveito, sobretudo aqueles que entram agora para área da comunicação, poderão entender que não podem ser só um jornalista, mas também um bom marketeiro, RP (relações públicas), e assessor de imprensa.

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